O que leva uma pessoa a agir, mesmo que contra o fluxo comum?

Estava eu sentada na mureta da orla da Praia do Flamengo, em busca de silêncio para colocar em palavras tudo aquilo que eu havia vivenciado durante aquele dia carioca, quando a passagem de um vento forte me distraiu. Levantei os olhos, percebi o eixo do meu próprio corpo, as cores de final de tarde, o movimento nos banheiros públicos atrás de mim, outras muitas pessoas também sentadas ao longo da mesma mureta. Fechei os olhos, senti o vento no meu rosto, ouvi seu contato com o mar, e algum outro barulho… Abri os olhos, era o lixo que jogado entre a mureta e o mar, voava e batia contra o chão – uma espécie de plataforma do porto, larga, de cimento, que com a maré alta estava quase sendo invadida pela água. Muito lixo, sendo arrastado pelo vento, e provavelmente assim seria até encontrar com as águas e ser levado pelas ondas.
Era o nosso lixo, produzido num evento pelo meio ambiente, poluindo o mar. Que absurdo, pensava eu, e numa fração de segundos, resolvi pular. Foi um pulo alto, da mureta até chegar à plataforma, o que chamou a atenção dos que estava em volta. Melhor assim, pensava eu, que todos vejam. Deixei minha mochila num canto e, um pouco envergonhada, comecei a recolher aquele lixo todo.
Levantava sempre a cabeça, para observar reações. Alguns me viam como louca, riam, outros desviavam o olhar, e alguns apenas mantinham-se observando, tentando entender. Explicava a eles, mais ou menos com essas palavras: “Como pode? Nós, realizando um evento para debater sobre como proteger o meio ambiente, viver em harmonia com ele, e poluindo-o ao mesmo tempo! É muita contradição!” E assim fui gritando coisas, ideias, provocações, chamando-os para recolher aquele lixo comigo. Não sei quanto tempo durou, podem ter sido segundos, minutos, meu coração batia muito rápido, pra mim foi uma eternidade. Só sei que ninguém se mexeu.

Mesmo que algumas pessoas estivessem de certa forma me ouvindo, e aprovando minha atitude através de seu olhar, ela não pôde se colocar na mesma posição que eu. De repente uma voz me chamou, se aproximando. Era um segurança, me proibindo de fazer o que eu estava fazendo. “Por quê? É proibido catar lixo?” – questionei, empilhando tudo em meus braços. “Você não pode estar aqui, essa área é restrita” – dizia o segurança encabulado. Continuava meu movimento, de abaixar e recolher cada resíduo, um por um.
Era papel, plástico, garrafas, muitos folhetos do evento. “Olha só! Isso é nosso! É nosso lixo, e está indo pro mar!”. A pilha já estava caindo dos meus braços, assim como minha força de vontade. O segurança percebe minha insistência e chama por reforço em seu walk-talk. Não sei se do ângulo deles, lá de cima, estava fazendo alguma diferença, mas realmente ninguém desceu, ficaram todos ali de cima, me observando. Será que eles sentiam aquele evento como deles, assim como eu sentia meu? “Por favor, você está atrapalhando meu trabalho!” – implorava o segurança.
Um homem sentado na mureta me chama e me entrega um saco plástico, que provavelmente antes envolvia o alimento que ele estava mastigando. “Você está me dando?” – pergunto – “Pra eu jogar no lixo por você?”. Não me lembro se ele chegou a falar alguma coisa, mas me recordo da cabeça dele acenando um sim. O segurança me chama novamente, dessa vez me puxando pelo braço. Acho que retruco mais alguma coisa, mas, já enfraquecida pela expectativa desfeita de ser seguida, me rendo ao segurança.

“Tudo bem, seu moço, deixa só eu pegar minha mochila…” – procurando acalmá-lo. “Mas olha só quanta garrafinha de água!” – grito, colocando separadas as cinco no alto da mureta. Um garoto jovem, de rosto pintado, prevê o vento levando-as e chega para oferecer suas mãos. Entrego-lhe também o resto do lixo e busco minha mochila. Guardo as garrafinhas, para entregar ao pessoal que está ali perto construindo uma árvore de sonhos com material pet, e ele se encarrega de jogar o resto na lata de lixo (tudo na mesma lata, porque em um evento pela sustentabilidade, não há separação de reciclados!).
Comecei a caminhar ao lado do segurança em direção à saída, ainda muito agitada, tentando conversar e atingi-lo um pouco também, quando recebo uma salva de palmas daqueles que tudo observaram da mureta. Porque afinal eles não se juntaram a mim, se admiraram minha atitude?
O que leva uma pessoa a agir, mesmo que todos a olhem com estranheza? Pra mim, foi um momento único de impulso, florescido por tantas pessoas inspiradoras que havia conhecido naquele mesmo dia, um momento de conexão com o planeta que habito, e um amor incondicional por ele, capaz sim de me expor o quanto for preciso. Foi uma intervenção espontânea, que poderia ter sido feita de forma mais eficaz, mas que assim aconteceu. Talvez não tenha adiantado nada, talvez tenha acendido alguma luzinha de bem dentro das mentes da plateia. Pra mim foi transformador. Uma primeira experiência desse tipo, de muitas que ainda virão.
Texto escrito e cedido por Bruna Bernacchio.
Imagens: Poeme-se.
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Que lindo, Bruna! Fiquei emocionada e me identifiquei com o teu relato. Fiz isso uma vez na Praia Grande, recolhendo canudos ao redor das mesinhas de um quiosque, onde as pessoas tomavam suas caipirinhas, ouvindo pagode. Achavam que eu era louca, mas JURO que mais tarde apareceu uma tartaruga morta na beira d’água e aí foi a minha revanche, continuei meu discurso, agora com um exemplo nato na cara de todos. Parabéns, querida, continuemos o nosso trabalho de formiga pelo respeito ao planeta, uma semente você plantou na mente de cada uma das pessoas que te viram, tenha certeza! Beijo grande!
Muitos gostam de achar soluções, outros gostam de criticar, outros até faz protestos, mas ninguém ou …..quase ninguém gosta mesmo de usar os próprios braços ou força de vontade