Escutamos diariamente pessoas falando sobre biodiversidade, equilíbrio ecológico, e até do suposto “efeito borboleta”, e não nos damos conta da profundidade e complexidade dessas questões. Independente dos motivos desse descaso, o importante é atentar para cada pequeno detalhe, inseto, animal, planta, molécula, átomo! Pode não parecer, mais nosso ecossistema é frágil e está em constante mutação, qualquer descuido é capaz de provocar grandes mudanças. Esse é o efeito borboleta.
Ao todo são 37 países que sofrem de crise alimentar e os preços dos alimentos não param de subir. Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), 1,5 milhão de crianças morrem todos os anos vítimas de desnutrição, e o Programa Mundial de Alimentos afirma que se essa tendência continuar teremos um aumento de alguns milhões de pessoas passando fome.
O Censo Agropecuário de 2006 apontou que a agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção de alimentos, tem sido suprimida pelos grandes latifúndios produtores de commodities. Mas uma crise nunca está vinculada a apenas um fator. São diversas variáveis que juntas contribuem para que todo o sistema entre em declínio, fatores como a demanda conflitante biocombustível/alimentação, o aumento da temperatura global, e principalmente, o desequilíbrio dos serviços ecológicos, tais como polinizadores, ciclos hidrológicos, composição e formação do solo, ciclagem de nutrientes, etc… Todos esses fatores devem ser analisados de forma conjunta, a fim de se construir uma análise holística que venha a esclarecer a situação em que a terra se encontra.

abelha africanizada (Apis mellifera)
Na década de 70, apicultores americanos começaram a perceber que suas colméias estavam desaparecendo, dados recentes apontam perdas de até 60% na população de abelhas. Desde então esses fatores tem sido observados de perto por pesquisadores do mundo todo, apresentando dados alarmantes que tem sido publicados e disseminados pela comunidade científica. A ação desses insetos está diretamente ligada à produção de alimentos, tanto que economistas e ecologistas calculam que a contribuição dos polinizadores silvestres para a agricultura dos Estados Unidos chegue a US$ 6 bilhões/ano, uma quantia mais do que significativa para um ativo de investimento zero. Abelhas manejadas (criadas em cativeiro) somam outros US$18 bilhões/ano.
Para se ter uma idéia do que esses pequenos insetos representam na nossa vida, um estudo apresentado pela Academic Press de Nova York aponta que polinizadores são responsáveis por 85% da produção de alimentos como frutas, vegetais e legumes. O restante da polinização é feito por outros animais, ventos, manipulação ou por propagação. Os produtores tem se tornado cada vez mais dependentes dos polinizadores manejados como a abelha africanizada (Apis mellifera).
(Foto H.R. Heilmann)
Esse serviço é tão único e indispensável que é possível diferenciar as plantações e os alimentos que foram polinizados de forma natural devido a maior produtividade por hectare e a características de qualidade como: tamanho, cor e formato. Além disso, é financeiramente inviável e praticamente incabível que esse trabalho seja inteiramente feito a partir da manipulação do pólen pela mão de obra humana. O homem pode até copiar, mas quem possui a fórmula é a natureza.
Existem muitas suposições e conjeturas sobre as possíveis ameaças que tem determinado o declínio da população desses insetos. Fatores como a densidade das populações urbanas, fragmentação do campo, aquecimento global, excesso de agrotóxicos nas plantações e até extração ilegal de mel são citados por diversas fontes.
Um desses em especial tem chamado a atenção da comunidade científica. Existem diversas causas para o desaparecimento das abelhas. Algumas delas estão ligadas a doenças causadas por microorganismos e parasitas, como ácaros. Outra certamente está relacionada ao uso de determinados tipos de agrotóxicos utilizados em larga escala na agricultura. Só na região central do Estado de São Paulo, nos últimos três anos, mais de seis mil colméias de abelhas africanizadas foram mortas pelos inseticidas. Aqui não estão incluídas outras abelhas selvagens e outros insetos importantes para manutenção da biodiversidade.

Rainha e operárias
É importante ressaltar que os testes de agrotóxicos só levam em conta a morte causada pelo dano direto e, existem pesticidas que, em doses subletais, podem provocar mudanças no comportamento, tais como comunicação, formação, orientação e nascimento de abelhas, fatores que são indispensáveis para a boa saúde de uma colméia.
Dessa forma, a pouca informação e o descaso a respeito desses pequenos insetos estão determinando o agravamento da crise alimentar. Ações no âmbito internacional estão sendo tomadas com o intuito de estimular a criação de abelhas sem ferrão (links), mas essas atitudes ainda são uma pequena parte do que pode e precisa ser feito.
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